SMED. Troca rápida de ferramentas. Parte 2

Abordamos no último post o conceito de setup e fizemos uma introdução à ferramenta chamada SMED. Clique aqui se quiser relembrar.

Continuando, vamos direto ao ponto, no passo a passo da aplicação do SMED.

– Montagem da agenda: Prever logo no primeiro dia uma ou poucas horas para nivelamento de conceitos teóricos. Você como agente de mudanças deve introduzir o conceito do SMED, setup interno x externo, o passo a passo, responsabilidades, conceitos básicos de lean, desperdícios,etc. Ainda nesta introdução deve estar claro o tempo médio de setup atual versus a meta. Logo em seguida partir para filmagem do setup, prevendo na agenda o tempo que se leva usualmente. Em seguida prever tempo para análise do setup. Considerar tempo para análise e brainstorming de melhorias. Finalmente, considerar tempo de implementação das ações, preferencialmente ações que sejam realizadas dentro da semana Kaizen, com premissa da simplicidade. Finalmente, montar breve apresentação, com comparativo dos resultados antes e depois, principais ações e melhorias e fechar com apresentação ao Champion. O tempo de duração na agenda para cada atividade irá depender de cada caso em sua empresa.

– Filmagem do setup: Após agenda definida, logo no primeiro dia, conforme já explanado, feito introdução teórica e alinhamento de metas, o time já com devidas responsabilidades para para o Gemba. Será realizado a filmagem do setup. A Gravação em vídeo ajuda a documentar o processo, identifica os problemas e estabelece uma linha de base, considerando que escrever os passos é incômodo, subjetivo e difícil de revisar. Gravar o processo todo, desde o último produto OK até o primeiro produto bom. Dica: sempre solicite aos operadores que estão sendo gravados para narrar os passos, assim como trabalhar em seu ritmo normal, o que na prática raramente acontece…  Assegurar que o monitor / display do tempo esteja ativado e capturado na sua filmadora. Manter gravação durante as paradas ou inatividade, te garanto, será impactante… Para trocas envolvendo mais do que um operador, utilizar várias câmeras ou assegurar que todos os operadores estejam visíveis através do processo.

Ao cronometrista e escritor trabalhar em conjunto preenchendo a folha de observações.

Ao sombra fazer em uma folha em branco, um croqui da área. Acompanhar o operador fazendo o digrama de espaguete e contando o número de passos. No final basta multiplicar a quantidade total de passos por 0,6 ou 0,7 metros, obtendo assim a metragem ou kilometragem percorrida pelo operador.

Ao observador e forasteiro ficar com olhos atentos as movimentações, buscas, desperdícios do Lean, redundâncias, enfim, a todas atividades do setup up. Idéias ou visualizações de melhoria podem ser registradas a qualquer momento, para posterior discussão.

 

 – Análise do setup: Revisar o vídeo e todo trabalho do time e registrar ou revisar cada passo. Indicado que se calcule ou revise o tempo de cada atividade ou passo. Revisar a documentação e identificar as partes mais importantes. Verificar os problemas específicos (especiais) e removê-los da base de tempo, se apropriado. Verificar se o tempo total está alinhado com os dados históricos (as trocas devem ser típicas).

Classificar cada passo como:

 – Externo – atividades que podem ser realizadas com equipamento em movimento ou trabalhando.

 – Interno – atividades que só podem ser executadas com máquina parada.

Classifique também se as atividades são de “Encaixe”, “Ajuste” ou “Problema”.

Rastrear e coletar ideias para melhoria.

 

– Melhorias: Converter setup interno em externo: O pulo do gato do SMED é o conceito de setup interno e setup externo. As etapas externas podem ser realizadas antes do desligamento ou parada da máquina. Manter-se na busca por etapas externas e revisar se o time que opera a máquina atual será suficiente ou capaz para realizar estes passos antes de desligá-la. Use e abuse da criatividade.

Recomendo fortemente a busca pelo livro Sistema de troca rápida de ferramentas de Shigeo Shingo. Nele a centenas de sacadas e exemplos com desenho e croquis sobre “padronização” e “exemplos de dispositivos funcionais”, que irão fomentar sua criatividade para busca de soluções simples e que funcionam. É a Bíblia do setup rápido.

Um exemplo de conversão de setup interno em externo em trocas de moldes de máquinas de fundição é pré-aquecimento de moldes fora da estação de trabalho. Ao invez de fazer esta atividade com máquina parada, o time poderia já trazer o molde pré-aquecido para troca, logicamente que se tomando todos os cuidados de segurança. Isto derruba o tempo de setup e é uma cássica conversão de setup interno para externo.

Shigeo Shingo – 1909 – 1990

 – Melhorias em Encaixes: Enquanto os parafusos são os melhores mecanismos de acoplamento, os parafusos são também inimigos de trocas de série rápidas. Minimizar o desperdício associado a encaixes:

– Eliminar o uso de parafusos, porcas e roscas;

– Utilizar métodos de acoplamento sem parafusos, de único movimento;

– Redesenhar os ferramentais para que nada seja removido;

– Fazer ou comprar um kit extra de separadores, adaptadores e parafusos (caso sejam necessários para a nova ferramenta);

– Utilizar dispositivos de encaixe de um único movimento;

– Usar ferramentas elétricas para apertar encaixes.

 

A mesta final é encontrar um método que demande, nenhum, um ou no máximo dois movimentos para encaixe. A seguir alguns exemplos de métodos de encaixe:

– Braçadeiras, Auto, Ganchos e braçadeiras manuais;

– Braçadeiras de Balanço, Chaves e Parafusos;

– Parafusos de Quarto de Giro;

– Cunhas;

– Aberturas em forma de Pera;

– Porcas em Forma de Asa;

– Ímãs;

–  Método de Came / excêntrico;

Novamente, recomendo consulta no livro de Shigeo Shingo para visualizar estes métodos, certamente sua criatividade irá despertar.

 

– Melhorias em dispositivos de posicionamento rápido:  Evitar uso de roscas, chaves de boca, reposicionamento de chaves, muitas medidas e análise qualititiva de fixadores. Ao inves disso prefira engate rápido, chave T ou L, chave com catraca, medida única e análise estrutural de fixadores.

Estou sendo chato, mas veja as ideias de dispositivios de posicionamento rápido trazidas por Shingo. Reforço sua criatividade irá criar asas.

 

– Melhorias em Ajustes: Eliminar tentativa-e-erro pela abordagem padronizada, este é o objetivo aqui. Se algo precisa ser ajustado durante a troca, deve ser feito certo na primeira vez. O posicionamento pode ser melhorado:

– Usando pontos configurados e paradas (stops) fixas;

– Integrando dispositivos e réguas;

– Usando blocos de guia, pinos, trilhos e entalhes;

– Padronizando as ferramentas e instalações / dispositivos;

– Usando modelos e código de cores;

– Marcando posições e pontos de referência.

Novamente, recorra ao livro de Shingo citado para iluminar suas ideias com sugestões de melhorias diversas em ajustes. É surpreendende o potencial de melhoria aqui.

 

– Melhorias em Organização do setup: Normalmente e surpreendentemente, 1/3 dos ganhos de setup é devido à melhoria em atividades de organização e coordenação. Desenvolver um fluxograma para determinar a seqüência ideal de passos, bem como quem deve realizá-los, um procedimento de setup. Quase nenhuma empresa tem este nível de padronização, fazem bons procedimentos para operação mas se esquecem de aplicar o mesmo em setups.

Considerar na organização e gestão do setup a organização das ferramentas necessárias para o setup. Assegurar que todos os turnos estejam cientes da nova distribuição de responsabilidades. Avaliar os números ideais de operadores envolvidos na Troca. Envolva o melhor operador em setup para definição da seqüência, etc. Você ainda pode definir um time, uma espécie de SWAT de setup para ganhos imediatos. Esta ação não atua na cultura, mas traz benefícios de ganhos imediatos. É impactante nos resultados você gerenciar esta SWAT de setup.

 

– Finalização: Após implantação de melhorias, rodar o setup novamente e fazer nova filmagem, análise e melhorias quantas vezes forem necessárias, até atingir o objetivo. Desenvolver checklists e guias visuais para assegurar que o novo setup pode ser realizado por cada operador. Identificar um dono do processo de setup para assegurar que novas idéias de melhorias serão revistas e implementadas. Auditar o novo procedimento de set up para assegurar que os ganhos são mantidos. Criar uma Instrução de Trabalho Padronizado (sempre com o melhor operador). Contabilizar os ganhos (gráfico antes x depois). Monitorar ou medir o tempo de setup constantemente, até que a melhoria seja consolidada. Sempre que houver desvios verificar a causa raiz e agir!

A manutenção dos ganhos é desafio em qualquer processo de melhoria. Aqui vale medição constante e reporte para o gestor ou Champion. Aliás aquilo que não é medido não é gerido, lembre sempre desta máxima.

 

Espero que esta ferramenta te ajude. É poderosa, se nunca aplicou ou trabalhou com SMED, siga o passo a passo aqui colocado e para se especializar busque por Shigeo Shingo, é o mestre no setup, é inspirador!

 

E para finalizar: pratique!!! Pratique, pratique… sempre!!! Só se consolida aprendizado com a vivenciação, a experimentação, mãos que fazem aprendem muito mais que mãos que apenas pensam…

 

Forte abraços!

 

Alexandre Ávila

 

SMED. O Antídoto contra altos tempos de Setups.

SMED??? Agora vai aqui um tema específico para aqueles que atuam em ambiente de fábrica, de produção. Para muitas empresas um do desperdícios que consumem muita capacidade produtiva é o tempo de setup, ou troca de ferramentas. Infelizmente, este tempo está presente e para muitas organizações é expressivo.

Mas para aqueles que são leigos, do que se trata o tempo de setup? Basta pensar na corrida de Fórmula 1 (F1), o famoso pit stop, seja para abastecimento ou troca de pneus, ou o que quer que seja… aquele tempo em que o carro está parado no box, é o tempo de setup. Infelizmente, é necessário, mas suficiente para perder a corrida, logo, deve ser muito bem administrado.

Nas empresas, há máquinas e equipamentos, sejam isolados, sejam em linhas ou células, qualquer que seja a tecnologia: fundição, usinagem, tratamento superficial, envase, controle de qualidade, etc… todas estas máquinas, podem produzir um mix de produtos, tipos diferentes de itens vendáveis e para que a máquina pare de fabricar um produto A e para dar início a produção do produto B, todo este tempo que está no meio, é o que chamamos de tempo de setup ou simplesmente tempo de troca de ferramentas.

Tecnicamente o tempo de setup é o tempo decorrido entre a ultima peça boa “A” e a primeira peça aprovada (boa) “B”, levando em consideração toda troca de ferramenta, ajustes necessários, medições, etc até que se aprove a primeira peça “B”.

Já atuei em indústrias que o tempo de setup de uma linha era 15 a 20 horas. Cito isso apenas para mostrar na prática o quanto este tempo é expressivo para algumas empresas. Qualquer tempo ganho no setup de uma empresa assim é benefício direto na produtividade, se convertendo em horas produtivas e consequentemente faturamento.

Da mesma forma, há empresas com redundâncias de equipamentos ou mesmo com capacidade produtiva subdimensionada (sobrando capacidade), que não faz o mínimo sentido qualquer esforço para ganhar tempo de setup, sendo então o SMED uma ferramenta para uso futuro.

Para as organizações que o tempo de setup vale ouro, o pensamento Lean traz uma ferramenta que veste como uma luva. O SMED. Single Minute Exchange of Die. Se traduzir no pé da letra temos “Troca de ferramentas em único dígito”. Na prática, o título da ferramenta é agressivo, é isso mesmo. A proposta ideal é a troca de ferramentas em menos de 10 min, ou seja, único dígito. Impossível? Talvez… mas o que mais importa são os ganhos e a melhoria contínua na redução do tempo de setup. Pouco importa se o único dígito está longe demais de sua realidade.

Há muitos livros e autores renomados que tratam o tempo de setup ou SMED. Entre eles é respeitável o japonês Shingeo Shingo. Este traz abordagem e ideias espetaculares para dispositivos de troca rápida e também não posso deixar de mencionar, para Poka Yokes também. Podemos tratar este tema futuramente, os dispositivos a prova de falhas (Poka Yokes).

Simplificando a metodologia SMED, temos alguns passos para aplicação e busca da redução do tempo de setup. Mas antes do passo a passo o conceito matador da metodologia:

Setup interno: todas as atividades que só podem ser realizadas com a máquina parada;

Setup externo: todas as atividades que podem ser executadas com equipamento em andamento.

E este conceito de fato é matador. É aqui que mora o segredo, o desafio e toda criatividade do time. É neste conceito que está o pulo do gato da metodologia SMED.

Portanto, a seguir o passo a passo simplificado do SMED:

Formar o time. Capriche na escolha das pessoas. Nunca abra mão disso, é o diferencial de qualquer trabalho de melhoria. Para o time segue algumas funções:

– Líder: será o lider do evento, desejável que tenha conhecimento de ferramentas Lean e vivência com eventos SMED;

– Operador: deixe que um ou mais operadores participem do trabalho. Peça para executarem o setup da forma com que sempre fizeram. Logicamente, na prática há tendência dos mesmos tentarem desempenho melhor, devido a mobilização de pessoas ao redor;

– Cronometrista: a pessoas que vai cronometrar as atividades, colocar cada elemento de trabalho do setup, ou seja, cada atividade ou operação (soltar, apertar, retirar molde, colocar molde, centralizar ferramenta, ajustar ferramenta, etc). Peça para o operador ir narrando o setup para facilitar as anotações e tomada de tempo;

– Sombra: a pessoa vai fazer um croqui da estação de trabalho e fazer um diagrama de espaguete. Esta pessoa irá seguir o operador e pode opcionalmente contar quantidade de passos dados pelo operador para efetuar o setup. No final do trabalho teremos o diagrama de espaguete preenchido e a kilometragem percorrida pelo operador no setup. Geralmente estes dados são impactantes;

– Analistas ou observadores: a pessoa ou pessoas que ficaram analisando o setup, anotando observações e até mesmo erros ou problemas que saltam os olhos e por que não ideias iniciais de melhoria;

– Camera man: o setup pode ser filmado. Aliás altamente recomendável que se filme. Irá facilitar muito as medições de tempo, definição dos elementos de trabalho do setup além de ser possível assistir e analisar o trabalho posteriormente quantas vezes se desejar. Dica: verifique bateria e quantidade de memória antes de filmar o setup. Não fique na mão por detalhes simples como estes.

– Forasteiro: está maluco? Não… é isso mesmo. Forasteiro é a pessoa de fora, alguem fora da operação, por que não uma pessoa do financeiro, do planejamento, enfim, alguem com senso crítico e que não faz parte do seu dia a dia as operações de fábrica e de setup. Será uma visão “descontaminada” dos demais. É sempre bom ter uma visão de “fora”.

– Apadrinhador: é o Champion, o grande interessado no resultado do trabalho. Ele irá pover recursos e quebrar possíveis barreiras.

Escolha do equipamento ou da linha. Vale a pena escolher equipamentos ou linhas / células em que o tempo de setup é o pior (maior). Certamente será um campo fértil para realização do trabalho e mostra de bons resultados para replicar para demais máquinas após o sucesso do primeiro trabalho.

– Programar dias ou semana SMED. O trabalho de SMED, é como se fosse um Kaizen. Aliás não deixa de ser, inclusive muitas empresas chamam de Kaizen de Setup ou simplesmente SMED. E como todo bom Kaizen, a atividade deve planejar as pessoas e dias que irão ocorrer. Recomendado que o líder do SMED desenhe a agenda e valide com Champion.

– Montagem da agenda: Deixaremos para dar continuidade neste artigo no próximo evento. Ficou curioso? Não perca… E se quer se especializar, vá procurando por Shingeo Shingo até que traga novidades.

Valeu?!

E não podia deixar de dizer: pratique!!! Vale a pena!!!

Seguir o passo a passo aqui é certeza de bons resultados.

Forte abraços!

Alexandre Ávila